ads

Destaque1
Destaque2

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A magia da Serra Catarinense


O Planalto Serrano Catarinense é uma região de campos de altitude, florestas e grandes cânions, é a região mais fria do Brasil, e é o único lugar do país onde existe a possibilidade de precipitação de neve. É lá que existem os mais famosos e desafiadores percursos de rodovias do país, a Serra do Rio do Rastro e a Serra do Corvo Branco, rodovia SC-438 e SC-439 respectivamente. Como todo motociclista adora curvas, essas duas são um prato cheio para qualquer amante das duas rodas. O percurso da rodovia SC-438 é caracterizado por subidas íngremes e curvas fechadas, Já a SC-439 é praticamente toda na terra, só os mais difíceis trechos são asfaltados. E assim, eu deixo aqui um relato de Marcel Marc, que foi acompanhando de um grande amigo da internet, o Eduardo 62. Eles exploraram as serras catarinenses em um dia, e o que me chamou a atenção foi a emoção contida no relato. O texto vale a pena pela quantidade de emoção que se pode sentir, praticamente você se imagina fazendo o mesmo percurso, aliás, Abril de 2014 eu estarei lá, haja ansiedade. Apesar do enfoque no Rio do Rastro e Corvo Branco, a Serra catarinense tem muitos lugares bonitos para se ver e rodar, quem sabe nos próximos posts. Segue o texto:

"Honestamente, não acho que sou uma pessoa religiosa ou que acredita em mitos ou divindades. Acho sim que existe alguma “força superior”, e que é impossível sermos as únicas coisas vivas inteligentes no universo. E só.

Voltei a poucas horas de uma viagem de motoca que deu mais de dois mil km, e agora, já descansado, comecei a pensar sobre isso. Incrível como essa “força superior” pode nos ajudar numa viagem puxada como essa. Uma viagem que, para uma pessoa mais realista como eu seria um mar de dor de cabeça, resultou numa viagem sensacional. Exagero? Depois vocês me falam.

Pouco tempo antes desse feriado, nosso humilde moto grupo (que chamamos de moto clube, porque só descobrimos que somos um moto grupo depois de fazer os adesivos, então ficou assim mesmo) planeja um rolê para Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina, com coisa de 900 km de distância de SP. A ideia seria sair na Quinta e dormir em Florianópolis, Sexta em Urubici, Sábado fazer as serras restantes (explico mais abaixo), e voltar para SP no Domingo, numa paulada só.

É uma “puxada” de outro mundo, impossível de se fazer? Não, não acho. Só que o detalhe que a minha scooter estava no mecânico há menos de 12 horas antes da viagem, e que uma CB450 antiga, ano 85 (quem tem carro ou moto antiga sabe o que estou falando) viajariam juntas (além de uma XRE), me deixou levemente preocupado. Mas, enfim... vamos encarar, né? Do chão, não passa...

Inicialmente, o grupo teria 5 pessoas, mas 2 não puderam ir. Menos gente para curtir, menos gente para apoiar se desse alguma merda.

Então, como combinado, saímos de SP na Quinta, às 05h30min, rumo a Floripa. Neblina e frio gelado logo que passamos por Taboão da Serra (e eu, claro, de bermuda). Paradinha rápida para colocar blusa e calça. Óbvio que foi colocar a roupa que o céu limpou e saiu aquele sol. Combinamos uma parada rápida a cada 100 km, para desamassar o traseiro, então, vai assim mesmo. E vamos nessa tocada, pela BR, até chegarmos em Florianópolis (com aquele trânsito bem zoado, velho conhecido de quem anda pela BR).

Estava tudo ótimo (apesar, claro, de nos perdermos na ilha, e darmos a volta nela inteira). Fizemos o trajeto num tempo muito bom, ainda estava claro, as motocas não apresentavam nenhum problema. Era só largar as coisas no hostel e finalmente comer alguma coisa que preste.

Paramos num lugar onde o GPS apontava que já estávamos no destino. Olhamos para um lado (uma calçada só de comércio), do outro lado, um rio. GPS maldito. Lá perto, tinha um grupinho de senhores conversando numa mesinha. Perguntei se eles conheciam o tal hostel, e eles apontaram para uma passarela de madeira que passava por cima do rio e falaram que ficava do outro lado. Ok, mas qual o caminho para chegar lá com as motos? “-É pela passarela mesmo!”. Ai, cacete…

Plano 2, ativar !!! Deixar as motocas onde estavamos, e levar a bagagem para o hostel.
- Acho melhor atravessarem com a moto. Se deixarem aqui, levam – fala um dos senhores da mesinha.

Plano 3, ativar !!! Vai um lá para pelo menos ver se cabem as motos na garagem antes de passarmos com a motos pela passarela, né ??
- Cara, nem garagem têm. Falaram para gente parar em frente ao hostel. Mas a entrada fica bem num corredor, onde é passagem de pedestre.

Plano 4, ativar !!! Se jogar na frente de um ônibus em alta velocidade, para não doer. Nem isso rolou porque o ponto final estava bem na nossa frente.

Aí ficamos lá, matutando, cidade bombando de gente por conta do feriado, todos os hotéis próximos já reservados...

- E se formos para a parte norte? É menos badalado... deve ter lugar...

- Mas e se estiver cheio? Vamos rodar até lá só para passar nervoso...

Já estava procurando o lugar menos sujo da calçada para me acomodar e passar a noite quando o 62 liga para a pousada em Urubici, onde fez a reserva para Sexta, e pergunta se teria um quarto para aquele dia. Por sorte, o “nosso quarto” estava vago, então, poderíamos ir para lá. “Só” uns 200 e poucos km de distância. Então, partiu Urubici!!!

Pegamos um frio lazarento na estrada (à noite, num breu que até eu duvidava que existia, sem uma alma viva durante o caminho), mas chegamos na cidade. Como já estava tarde, resolvemos jantar antes de irmos para a pousada. Paramos num posto de gasolina para comer algo antes de pegarmos a serrinha para Urubici, pois, provavelmente, não encontraríamos nada aberto na cidade.

Chegamos à pousada, finalmente. Já um pouco descansados, começamos a refazer os planos, já que ganhamos um dia, pois passamos batidos por Florianópolis. Inicialmente, decidimos fazer a Serra do Rio do Rastro na Sexta, e as outras serras no Sábado, por conta da previsão de chuva no final de semana. Já pensando na volta (que seria no Domingo, para rodar mil kms, direto), propus fazermos todas as serras (Rio do rastro, Serra do Corvo Branco, Morro da Igreja, Véu da Noiva, São Joaquim, e sei lá mais o que) no mesmo dia (Sexta), e voltarmos metade do caminho no Sábado, parando em Morretes – PR, para dormir. Então, bora tentar fazer todas as serras no mesmo dia (coisa que todo mundo fala que não dá para fazer, mas não custa tentar, né?).

E estamos lá, tomando um café da manhã na Sexta, lá pelas oito e pouco da manhã, conversando com a dona da pousada. A Dona Marlete, super simpática e prestativa, nos deu um mapinha com os principais pontos turísticos, e onde os motociclistas costumam visitar. Começamos a estudar o mapa, e ela sugeriu fazer tais pontos na Sexta, e o restante no Sábado. Quando falamos que pretendíamos fazer todas no mesmo dia, ela fez uma cara de “hein?”.

Perguntamos se poderíamos levar a chave do quarto, pois, provavelmente, chegaríamos tarde. Posse da chave aprovada, borá lá enrolar o cabo!!!

Primeira parada, porto de combustível. Tanque cheio, conferidinha no óleo do motor... e a Chaveirão tá com o óleo baixo! Medo, muito medo! Meio litrinho para dentro, e vamos embora.

PARA que lado é? Será que é aqui? Vamos até aquela placa, para ver o que tá escrito! E roda, roda, roda... e pede informação... e roda mais um pouco... e parada para tirar foto... e roda mais um cadinho... bom, pelo menos a estrada é um tapete e bem divertida, a paisagem é linda e o tempo está maravilhoso!

Paradinha para encher o tanque, perguntamos se a Serra do Rio do Rastro é para aqueles lados mesmo... frentista confirma que estamos perto, que o mirante fica a 9kms de lá. Puxa, pelo menos uma vez na vida acertamos!

Chegamos num lugar onde tinha bastante gente, com vários carros e motos estacionados. O lugar parecia uma quina do mundo. Da estrada onde estávamos não aparecia nada do outro lado de onde as pessoas estavam. Nem o topo de alguma montanha, nem nada. Que curioso…

Encostei a motoca e fui ver o que tinha depois do muro, sem nem tirar o capacete. E sou obrigado a dizer, foi a paisagem mais magnífica que pude ver até hoje!!! Não existem palavras para descrever. Pode-se chamar o melhor escritor, o melhor fotógrafo, o melhor câmera man... Nada conseguirá captar, ou mostrar a real dimensão da coisa. O negócio é muito grande, é muito belo! Sinceramente, quando vi aquilo fiquei anestesiado, sem palavras. Cheguei até a me emocionar, tamanha beleza do que estava vendo. Só mesmo estando lá para entender. Aí você olha um pouco para baixo, e vê a tão comentada Serra do Rio do Rastro. Enxergam-se uns caminhões que parecem de brinquedo... as motos parecem formiguinhas andando num pedaço de fio. Mas não poderíamos ficar lá muito tempo, pois tentaríamos conhecer o maior número de lugares possível no dia. Então, vamos descer a serra!


Serra do Rio do Rastro

A serra é maravilhosa! Várias curvas “cotovelo”, onde os caminhões precisam manobrar para conseguir fazer a curva. Piso em condição bastante aceitável. Paisagem que parece mudar a cada curva (mas sempre belas). Definitivamente, estava em outra dimensão. Foi um dos momentos que queria que o tempo parasse, tamanha felicidade e satisfação que estava sentindo na hora.
O 62 estava tão empolgado, mas tão empolgado, que a serra acabou e ele continuou pilotando. Precisei emparelhar do lado e buzinar, avisando que a serra tinha acabado já há alguns quilômetros atrás, para ele acordar. Paramos num bar para tomar alguma coisa, pois estava muito quente, e conversar sobre a descida.

Pedimos uma Coca e começamos a conversar. Comentei com o Jr que estávamos com muita sorte, pois, pelo que os amigos comentam e pelo que vemos na internet, normalmente aquela região vive com o tempo fechado, com muita neblina, mas, por algum motivo, estávamos lá num dia muito bonito e limpo, então, tivemos uma bela visão do mirante. Nessa, vem a balconista do bar e comenta que, realmente, éramos privilegiados, pois um sol daquele, naquela região, era raro. Até comentou que há pouco tempo atrás, um grupo de 40 e não sei quantos uruguaios foram para lá para andar de bicicleta mas só viram chuva. Voltaram para o Uruguai sem conseguir andar de bike.

Subimos nas motocas (tanto a CB quanto a Chaveirão estavam um pouco estranhas, meio que “pipocando” durante a aceleração. A XRE estava perdendo rendimento. Achamos que foi problema com gasolina ruim no primeiro posto que abastecemos, mas o medo de algo pior, ou de alguma quebra, estava bastante presente até o momento) e saímos correndo para tentar fazer todas as serras.
O maior corte em rocha no Brasil fica na Serra do Corvo Branco
 De lá, fomos para a Serra do Corvo Branco. E claro, para seguir a tradição MCBA, precisamos pegar estrada de terra! Mas valeu a pena... o lugar é surreal!!! O começo da serra fica num tipo de fenda entre duas pedras enormes. A descida parecia um muro tamanha inclinação. No final da primeira descida, havia bastante gente olhando lá para baixo. Paramos a moto, e segui a estrada com o olho. Só aí entendi por que tinha bastante gente lá, estavam assistindo os sem noção que encaravam a descida! Porque a descida é muito forte. As curvas são todas 180, mas extremamente inclinadas.

O 62 não se aguentava e queria porque queria descer... eu ficava olhando, olhando, sabia que descer seria fácil, mas o problema seria subir! Fiquei imaginando a embreagem da Chaveirão derretendo (câmbio CVT). Resolvi descer depois de reparar que em cada curva tinha um espacinho que daria para embalar a scooter para que a embreagem não explodisse. Descemos, e menos de 1km depois não havia mais asfalto, o resto da serra é chão de terra batida e cascalho... então, sem chance de continuar. O pessoal penou demais para conseguir manobrar as motos num lugar tão inclinado e apertado como aquele, mas, no final, todos conseguiram não cair, e apesar do citado “espacinho” para embalar a Chaveirão, cheguei ao final da subida com a embreagem fervendo, pois o cheiro de queimado estava bem forte.

Conseguimos concluir todas as serras que planejamos visitar já na Sexta! Lá pelas 19 h, depois de 330 km rodados, estávamos de volta à Urubici. Como ainda estávamos “na febre do rato”, começamos a bolar o que fazer até a hora de dormir. A sugestão do Jr, claro, era descer e subir a Serra do Rio do Rastro, à noite! Quase no final da descida, tem uma lojinha de souvenir, na volta, paramos lá para dar uma olhada. Vimos uma foto mostrando a serra, de cima, à noite. A serra inteira tem iluminação elétrica, dava um efeito bem bonito na foto. Mas achamos melhor não dar muita sorte pro azar, pois, se desse alguma merda morreríamos de frio lá mesmo, pois provavelmente não teria ninguém para nos ajudar, e, além disso, ficava há mais de 80 km de distância. Resolvemos então voltar para a pousada para descansar um pouco, para depois comer alguma coisa.



Domingão… …tempinho meio nublado. Pessoal que estava em SP já avisando que estava caindo uma chuva monstro. Saímos já com roupa de chuva para garantir. BR horrível como sempre, fizemos a Serra do Cafezal inteira no corredor, estava parado desde o pedágio. Quando não havia trânsito, voltamos num ritmo bem acima do que andamos normalmente. Chaveirão andou vários quilômetros marcando 140 km/h, chegando a beliscar os 150 algumas vezes. Eu já estava imaginando o motor desbielando ou explodindo.



E, novamente, estou em casa, na cama, escrevendo mais uma babaquice gigante, extravasando uma coisa que foi muito legal para mim.

Ah, agora vocês me perguntam o que tem a ver essa história ridícula com acreditar em alguma força superior... então, pergunto:

1- Uma moto antiga e uma scooter, que não são 100% confiáveis, foram e voltaram de um role de 2,2 mil km em quatro dias, encarando terra, pedra, buraco, paralelepípedo molhado, serras imensas, combustível batizado, forçando motor e embreagem em situações que eu nunca tinha passado antes, e tudo mais;

2- Andar de noite e madrugada em lugares distantes e isolados, não tendo nenhum tipo de comércio por perto, quase não vendo nem carros passando, e nem um mínimo de um pneuzinho furado para cagar a viagem;

3- Uma região que vive com o tempo fechado, com neblina e chuva, e, justo no dia que estamos lá, tá com um dos dias mais limpos que já vi na vida;

4- Encontrar lugar para descansar o esqueleto, em cidades minúsculas, sendo lugares turísticos, em época de feriado e sem ter feito reserva;

5- Não pegar essas tempestades, uma estávamos dentro de um restaurante comendo o barreado... outra, estávamos no quarto em Morretes, e hoje, que parece que caiu o mundo, aqui em SP.

6- E, finalmente, ter a consciência de passar por tudo isso e cogitar algum “poder divino” depois de dar todos os motivos para quebrar a cara, e não acontecer NADA!!!

Sinais, meus amigos... sinais..."

Seja o primeiro a comentar!

Postar um comentário