domingo, 17 de agosto de 2014

Expedição Recife - Buenos Aires. 2° parte.


E vamos dando continuidade ao relato da viagem até o Uruguai. Para você que chegou ao blog nesta página, não deixe de conferir o primeiro capítulo aqui.

4º dia. Belo Horizonte/MG - São Paulo/SP: acordei com um céu azul e absolutamente nenhuma nuvem, maravilha, vamos em frente que a Fernão Dias é toda duplicada e com isso eu chegaria em São Paulo rapidinho. Este seria um dia fácil, não fosse pelo frio, e que frio. Apesar do solzão, segundo a previsão do tempo no celular estava fazendo 13 ºC. E por causa desse frio logo cedo eu dei uma paradinha antes do previsto para tomar um café e comer o famoso pão de queijo para esquentar. Ao descer da moto deixei-a no sol, e ao voltar e sentar no banco foi esquisito, pois apesar de estar no sol, o banco estava gelado, isso, gelado. Quem não mora no NE não deve entender o quão estranho foi isso. Mas vamos em frente que o dia estava só começando e com certeza iria esquentar. Passada a manhã, a fome já estava apertando e eu não sabia onde almoçar. Enquanto abastecia perguntei ao frentista onde eu poderia encontrar um almoço típico da região, ele me disse que qualquer restaurante que tivesse forno a lenha tava "bão", e então acabei parando na Casa do Quejo, assim mesmo, sem o "i". O restaurante é muito simples mas eu recomendo, comida boa e bem em conta, gastei 12 reais para almoçar com buffet a vontade e suco de laranja. Estômago cheio, sigo em frente e saio da Fernão Dias em Mairiporã sem problemas, excelente rodovia, só peca pela baixa velocidade permitida em alguns locais. Desembolsei R$ 5,25 para percorrer este trecho, foram sete cabines de pedágio de R$ 0,75.



Em conversas com amigos antes da viagem, todos me orientaram a contornar São Paulo e evitar o trânsito pesado da Capital. Peguei então a saída da Fernão em Mairiporã e fui margeando a represa Paiva Castro, estrada muito bonita e cheia de curvas. Neste ponto o GPS me ajudou bastante. Saindo de Mairiporã, segui pelo rodo anel e fui parar em Embu das Artes. Já era fim de tarde mas deu para passear pela praça e conhecer a feira antes do jantar e de encontrar com o pessoal do CBBrasil, gente de primeira qualidade. Passamos horas e horas batendo papo e consolidando as amizades de anos através do Fórum.

5º dia. São Paulo/SP - Itajaí/SC: depois de uma noite bem dormida, e apesar do entusiasmo que estava cada vez maior, aqui começa de verdade o maior problema da viagem. Sai de Embu das Artes com uma temperatura até boa, 14 ºC, boa pra ficar em casa todo enrolado, não em cima de uma moto. E assim segui então para mais um dia de tremedeiras. Após o primeiro posto de pedágio da BR116 parei para montar a câmera GoPro, e descobri que nestas viagens você acaba deixando muita coisa para trás, pois eh, mas não to falando dos problemas, o baú não travou direito e eu perdi alguns acessórios no caminho, infelizmente rodei 80 km assim e não fui avisado por ninguém até que a garupa de uma moto que me parecia uma Goldwing me avisou, mas já era tarde.

Seguindo as recomendações do pessoal de SP, fui com todo cuidado descer a Serra do Cafezal, uma serra bem perigosa com péssimo asfalto e toda em obras, pois no Brasil é assim, primeiro você paga pedágio, depois vem os benefícios. O trânsito estava complicado, engarrafado para quem subia e pista cheia de óleo e lama para quem descia. Vencido este trecho, comecei a descer uma serra que não sei o nome, mas vi placas mostrando que eu estava no Parque estadual do Rio Turvo, lugar muito bonito e mais um prato cheio para motociclistas, ao que me parece depois da Bahia você não anda mais em linha reta.


No Parque estadual do Rio Turvo dei uma paradinha para tirar algumas fotos, e logo em seguida vi que a neblina começou a fechar a estrada atrás de mim, como eu não tinha boas recordações da neblina, guardei a câmera rápido e sai voando. Mais a frente vi uma outra placa com o nome Cachoeira da Capelinha e entrei na trilha, o caminho era de terra, pedras e barrancos, desisti no meio dele pois se eu caísse ali não teria ninguém para me ajudar, além de ter achado o caminho um pouco esquisito. Uma pena, alguém sabe se perdi muito? Já bem mais a frente, após passar Curitiba e pegar a BR-372, fui obrigado a parar na PRF para dar um jeito de me esquentar. Subestimei o frio, porém a beleza da Serra do Mar desviou a atenção, principalmente pela quantidade de caminhões descendo, o que exigia máxima concentração e cuidado. Por sinal, um dos maiores perigos e o qual eu mais tinha medo era que um pneu de caminhão, desses recauchutados que vemos aos montes nas rodovias, estourasse na minha frente, e foi o que acabou acontecendo mais a frente, mas como estava com uma certa distância eu pude desviar tranquilamente.

Ao entrar em SC  me deparo com uma Estátua da liberdade gigante na cidade de Barra Velha, sem entender nada eu saquei a câmera, tirei algumas fotos e fui embora. Depois fiquei sabendo que é o simbolo da Loja de departamentos Havan. A noite já estava caindo, assim como a chuva, e finalmente chego em Itajaí e me encontro com o Jorge Pires do site CBBrasil. Tive uma recepção calorosa e ainda de quebra consegui arrumar alguns equipamentos para enfrentar o frio, e ainda conheci o Bazar do Motociclista, um local bastante interessante e novidade pra mim.


6º dia. Itajaí/SC - Urubici/SC: ahh finalmente, este seria o dia em que eu chegaria ao ápice da minha vida motociclística, era o dia da tão sonhada Serra do Rio do Rastro. Neste dia eu teria a companhia do Jorge, então saímos cedinho e pegamos muita neblina na saída de Itajaí. Aproveitamos e demos uma passeada por Balneário Camboriú e logo na chegada me chama a atenção a enorme Marina, demos uma volta, tiramos fotos e partimos para a BR-101 de novo. Em palhoça, saímos da BR-101 para a BR-282, e agora começamos a andar em rodovias que são o paraíso dos motociclistas, só curvas. Seguimos pela BR-282 até a cidade de Bom Retiro onde pegamos a esquerda para Urubici pela SC-110. Muito cuidado nessa rodovia, seguindo em direção a Urubici ela tem muitas curvas com raio decrescente, e algumas com inclinação incorreta, onde numa delas eu raspei sem querer o limitador da pedaleira. Durante a subida, o pneu traseiro da Fazer do Jorge furou, como eu estava com uma vacina antifuros da Valflex, chegou a  hora de testá-la. Como meu amigo me disse que voltou até Itajaí sem ir no borracheiro, a vacina está  aprovada, terei sempre uma comigo no baú.



Chegando em Urubici encontramos uma pousada com bom preço e excelentes acomodações, a Pousada do Prof. Verto. Urubici chama a atenção por ser uma cidade bem pequena, mas muito organizada, bonita e fria. Com os baús descarregados, finalmente eu poderia seguir em direção a Serra do Rio do Rastro. O caminho é mais uma vez com muitas curvas, ôhh coisa ruim. Logo no início do percurso, em uma das curvas mais fechadas, nós paramos no Belvedere, onde é possível ver toda a cidade.

Antes de prosseguirmos para a Serra demos uma parada rápida na Cachoeira do Avencal, uma queda livre de 100 m de altura. O local muito é bonito, porém passamos por lá rapidinho.


Seguindo em frente, vemos que o asfalto em Urubici é muito bom, já quando chega em Bom Jardim da Serra ele fica com muitas ondulações e remendos, o que tira um pouco da graça da estrada, portanto, cuidado para não exagerar nas curvas aqui. O percurso tem 80 km e é muito gostoso, mas você fica o tempo todo na ânsia de chegar, será que já é depois daquela curva? E assim, depois de dias na estrada, finalmente chego na atração principal da viagem. Estaciono a moto e vou em direção a grade sem olhar para baixo, ao encostar, olho e vejo que o que muitas pessoas já me disseram, é gigantesco, nem fotos nem palavras conseguem passar o mínimo de emoção que é estar ali.


O local é de uma paz incrível, você ouve de longe algum caminhão descendo ou subindo, fora isso, somente o vento na orelha, uma ou outra moto chegando, e lógico, os quatis! No mirante da serra não faltam motociclistas, ali sempre podemos conversar com pessoas que vem de longe só para ter o prazer de subir e descer a serra. E não é que eu conheci um Português que veio ao Brasil e alugou uma moto só para fazer o percurso das serras catarinenses. Bem, mas já era hora de descer, então pegamos as motos e seguimos. Logo de inicio se vê que a serra não admite brincadeiras, se você errar feio pode acabar caindo precipício abaixo, as curvas são muito inclinadas e muito fechadas. No meio da serra paramos para tirar algumas fotos, e nessa parada conhecemos o Marcio do Rio Janeiro, ele estava também em uma 250cc, uma Teneré, batemos um papo rápido e marcamos de nos encontrar em Urubici. Curva vai, curva vem, na hora que damos de cara com um caminhão a coisa se complica, ele ocupa todas as faixas de rolamento nas curvas, é bom sempre andar com cuidado, algumas curvas são completamente cegas e podem esconder algum obstaculo na pista. Já quase em Lauro Muller, me despeço do meu amigo Jorge, que iria voltar para Itajaí, e começo a subir. Subir é muito melhor que descer, as curvas parecem mais fáceis. Mas mesmo assim, em algumas delas eu fui bem grudado na mureta e com algumas rápidas buzinadas avisava a quem estivesse vindo que tinha uma moto no caminho.


Existe uma pequena cachoeira na serra que faz com ela esteja sempre molhada, o que deixa as últimas curvas, para quem sobe, mais desafiadoras ainda, e nessas curvas eu escorreguei as traseira três vezes. Depois de descer e subir essa grande montanha russa, fui mais uma vez no mirante, lugar onde você pode ficar vários minutos só admirando a vista e conversando com os turistas que chegam. Pausa para o café, e ainda esperei para ver a serra a noite, uma atração a parte ver suas curvas iluminadas deixando um rastro de luz em meio as montanhas e morros. Neste ponto já eram 18:10h e a temperatura estava em 10 °C, portanto optei por não descer a serra à noite, pois ainda tinham 80 km de frio até o hotel em Urubici. E haja frio, fui o caminho todo batendo os dentes, mas a rodovia foi mais uma atração, pois era um cenário que eu nunca tinha vivenciado. Frio de rachar, como falamos por aqui, e aquele cheiro de pinheiro no ar. Logo de início não entendi, quando comecei a avistar as chaminés expelindo fumaça para aquecer as casas, não parecia que eu estava no Brasil, aliás, era um Brasil que eu não conhecia. Ao chegar ao hotel, pude experimentar mais uma sensação inédita, o quanto é bom ficar ao lado de uma lareira se aquecendo, e nesta mesma lareira encontro o Jessé, um gaúcho de Canoas que havia conhecido no mirante da Serra, saímos para jantar e trocar ideias, e assim decidimos que iriamos Juntos ao Morro da igreja no dia seguinte.

7° dia. Morro da Igreja e Serra do Corvo Branco: o dia amanhece com muita chuva, e logo cedo recebo uma mensagem do Marcio, o fluminense da Teneré  250, marcando de nos encontrarmos na pousada onde eu estava. Apesar da chuva, partimos juntos com o Jessé para pegar a autorização para subir o Morro da Igreja. Para quem não sabe é necessário pegar uma autorização, não custa nada, ela deve servir provavelmente para que eles possam contabilizar a quantidade de turistas, e também porque lá é onde fica um dos radares da Força Aérea que compõem o Cindacta II.

Com a autorização concedida, entramos a direita no único semáforo da cidade e pegamos a SC-370 até a entrada para a pequena estradinha que leva ao Morro da Igreja. A SC-370 é muito bem sinalizada e está em excelente estado de conservação, já a subida para o morro tem muitos buracos e não tem acostamento, são 15 km de subida íngreme. Já no inicio da subida a estrada foi tomada pela neblina, mesmo assim continuamos subindo na esperança de ser apenas uma nuvem baixa. Como vocês podem conferir no vídeo logo abaixo, não foi possível ver absolutamente nada. Lá no topo eu comecei a ficar com a mão dormente, pois durante a subida eu tirei as luvas para poder operar a câmera, foi difícil recolocá-la e tiver que por a mão no motor para dar um ajudinha. Além do frio, a ventania era muito forte, a ponto de quase me derrubar da moto ao tentar manobrá-la, não passamos nem 2 min lá em cima e descemos correndo para não congelarmos. Não tenho a temperatura exata, mas estava fazendo 14 Graus em Urubici, como subimos a pouco mais de 1800 m de altitude, imagino que a sensação tenha sido próxima de zero, senão abaixo. E por conta deste tempo, acabamos não indo na cachoeira Véu de Noiva, aliás, nem sequer vimos a entrada e a placa..



Já na SC370 eu e o Márcio nos despedimos do Jessé, que retornou dali direto para casa. Como o tempo deu uma leve melhorada durante a descida, Marcio e eu resolvemos ir até a Serra do Corvo Branco. Para chegar lá, era só continuar pela SC-370. Os últimos 5 km antes da Serra são de terra, e por causa da chuva não foi muito fácil transpô-los, foi lama para todo lado. Como a Fazer tem pneus lisos, as rodas patinaram toda a ida e volta, pelo menos fomos recompensados ao chegarmos. Provavelmente por causa da chuva não havia mais ninguém por lá. Desci e subi duas vezes, pena que não deu para curtir muito porque a pista estava toda molhada, tive que andar com muito cuidado. Quem for para lá um dia, não esqueça de fazer o que diz a placa de informações, que é sentir o efeito do aquífero guarani no maior corte em rocha da América Latina.


Caso o dia estivesse com o Sol, eu teria seguido até Grão Pará e subido novamente a Serra do Rio do Rastro, mas o tempo piorou na volta da Serra do Corvo Branco e acabei ficando o resto do dia dentro do hotel, saindo apenas para trocar o óleo da Fazer pela primeira. Neste ponto meu odômetro marcava exatos 4 mil km de viagem. No dia seguinte parti com a certeza de que voltaria a Urubici e a Serra.

Em breve a próxima parte...

Confiram o vídeo da subida ao Morro da Igreja:


Clique aqui para ver a 1º parte desta aventura.