segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Expedição Recife - Buenos Aires. Parte Final.


Chegamos a última parte desta aventura, e para você que chegou nesta página, confira aqui a parte 1 e a parte 2.

8° dia. Urubici - SC/Santa Maria - RS: após dois dias, chegou a hora de deixar para trás a Serra Catarinense. Era dia 1° de Maio e eu queria chegar na casa de meu amigo Artigas, em Santa Maria, no mesmo dia. Optei por descer pela SC-110 até Bom Retiro, e de lá seguir pela BR 282 até Lages, onde pegaria a já velha conhecida BR-116. Saí tão cedo que não tinha ninguém de pé ainda na pousada. Logo na saída encontrei os postos de gasolina fechados, e o pior era que eu não tinha abastecido a moto no dia anterior, mas como eu sabia que o trajeto até Bom Retiro só tinha 20 km, desci tranquilo mesmo com a Branca de Neve na reserva (para quem não sabe, Branca de Neve é a Fazer). Para melhorar a emoção da descida, fui pego por uma forte neblina logo após deixar Urubici, e como eu queria chegar ainda naquele dia, segui em frente sem esperar que passasse. Este trecho no sentido Bom Retiro - Urubici tem diversas curvas com raio decrescente, mas voltando a situação se inverte, e as curvas ficam mais suaves, o que ajudou um bocado naquelas condições do tempo.


O dia 1º de Maio foi mais um dia de frio, e se tem uma coisa que o frio faz é atrapalhar o raciocínio. Ao passar por Vacaria, continuei pela BR-116 e fui parar na saída para a RS-122, foi aí então que eu notei que tinha algo errado, pois meu amigo Artigas tinha me aconselhado a vir por Passo Fundo até Cruz Alta, e dali desceria pela BR-158. Neste momento eu nem lembrei que se eu tivesse seguido pela 116 eu teria passado pela Rota Romântica e estaria bem pertinho de Gramado e Canela, mas em compensação seria muito mais demorado, então retornei e entrei em Vacaria. Para chegar na BR 285 o GPS me indicou entrar na cidade, lá dentro eu me confundi e entrei uma rua depois do que o GPS indicava, mas foi bom pois dei de cara com uma praça onde fica a Catedral de N. Sra. da Oliveira, parei para apreciar a vista e tirar fotos, mas foi uma pena que eu não tenha visto o termômetro.

Já bem mais para frente, pela parte da tarde, quando já estava na BR-377, acabei sendo enganando pela pista e tive a sensação de estar em linha reta e plana, neste momento a moto começou a perder potência, logo engatei a quarta, acelerei e o giro subiu, mas ainda assim a moto não respondia do mesmo jeito, pensei: é o fim da viagem, ela vai morrer e eu vou ter que chamar o guincho. Mas não é que logo depois de uma curva a esquerda a moto voltou a responder, e só aí que me dei conta que estava em uma subida bem íngreme. Não sei se realmente era local, o horário com o sol no rosto, ou o cansaço, mas me enganou bem.

9º dia. no nono dia eu fui um turista na cidade de Santa Maria, interessante que eu andei por ela como se estivesse na minha própria cidade, deixei até meu amigo preocupado achando que eu estava perdido. Como ela não é uma cidade plana, para andar por lá é preciso fôlego, haja ladeira. Quando fomos na Vila Belga eu me senti em Olinda/PE, A vila é toda formada de casas coloniais bem conservadas e ruas de pedra.


10º dia. Santa Maria/RS - Rivera/Uruguai: este foi o dia em que eu saí do Brasil, e ainda tive a excelente companhia de meu amigo Artigas Silveira, que me guiou em sua CB450.

Saímos cedo com bastante neblina, porém como ele é da região andamos rápido mesmo nestas condições. Interessante que você sempre fica com muito medo da neblina, mas depois de um tempo você se acostuma e vê que dá para continuar pilotando, e com alguém que conhece a região é mais fácil ainda.

Paramos para descansar em Rosário do Sul e de lá seguimos até Santana do Livramento, onde encontrei a gasolina mais cara da viagem, R$ 3,27 o litro. Dali atravessamos a fronteira e fomos dar um passeio no comércio uruguaio. Fizemos algumas compras mas fiquei um pouco decepcionado, a diferença de preço é muito pequena para o Brasil, e ainda temos o risco da Alfândega e garantia, depois disso almoçamos e retornamos. Para quem quiser testar a sorte, no Uruguai o cassino é legalizado, basta ser maior de idade. No retorno, quando estávamos passando pelo posto da Receita Federal, um funcionário não soube se expressar, confundiu-se e eu acabei passando direto enquanto meu amigo foi obrigado a parar, não deu em nada, mas foi bem esquisito.


A partir deste dia eu iria entrar em terreno desconhecido e não teria mais a companhia de ninguém. Eu já estava a 10 dias fora de casa, já tinha gasto um pouco de dinheiro a mais por ter subestimado o frio, e estava bem cansado. Eu tinha pela frente 5000 km de rodovias até chegar em casa, e eu ainda queria passar pela Serra do Rio do Rastro de novo, e ainda tentar ver a Pedra Furada. Por estes motivos eu decidi retornar.

Para você que vai fazer uma viagem desta pela primeira vez também, não cometa o mesmo erro, não reserve hotéis. Como eu era inexperiente acabei marcando o hotel no Uruguai e Argentina, achando que era a melhor ideia pois o preço seria bem mais barato do que diretamente, e eu ainda procurava especificamente por hotéis com estacionamento, para poder fazer um turismo mais tranquilo. Essa ideia é péssima, pois tudo tem que sair perfeitamente como você planejou ou você irá perder a reserva. Na época do planejamento, lembro de ter lido uma dica onde o viajante recomendou a reserva, infelizmente eu segui a dica e me dei mal.

11º dia. A volta: e foi com muita chuva que eu comecei a voltar, nunca tinha rodado tanto tempo nestas condições. O RS tem paisagens incríveis e lugares muito bonitos para se visitar, infelizmente esta tempestade atrapalhou e muito novamente. Decidi que iria por Santa Cruz do Sul, e depois seguiria por Montenegro e Portão até Novo Hamburgo, porém era tanta chuva, que com a visibilidade ruim eu não vi a placa e passei direto para Canoas. Quando vi que estava indo para Canoas eu peguei a RS-239, que ainda estava praticamente toda em obra, e aí sim peguei a saída para BR-116. Uma curiosidade que fiquei enquanto rodava nesse dia, era a quantidade de vezes que vi uma placa na estrada indicando um lugar chamado "Refúgio", ainda não sei nem imagino o que seria. As placas indicando "Belvedere" foram bem mais fáceis de perceber.

A BR 116 é duplicada até até a saída de Novo Hamburgo, logo após, teve início um dos mais bonitos trechos da viagem. Esta parte da BR é chamada de Rota Romântica, se você não conhece, não deixe de conferir o link.

Ao ver uma placa do Mirante da Rota Romântica, parei de imediato no posto de gasolina logo a frente para pedir informações, o frentista disse que era uma subida forte mas dava para ir de moto mesmo na chuva. A estrada é de terra com muitos pedriscos e muito íngreme, e por causa da chuva eu segui subindo pensando em como ia descer. Apesar de ser Domingo, acho que a chuva afugentou todo mundo, pois lá em cima só tinha eu, e estava meio esquisito, não fiquei muito confortável e por isso não demorei muito, mas deu para curtir bem a magnífica vista.



Parei para dar uma descansada próximo ao desvio para Gramado e Canela e vi que eu estava molhado dos pés a cabeça. Decidi então seguir em frente pois no outro dia eu queria estar em Urubici novamente para poder ver a pedra furada, e segundo a previsão, esse seria o único dia de sol da semana. Finalmente ao chegar em Vacaria a chuva deu uma trégua e eu consegui um quarto no hotel Ponto 1, que é muito organizado, tudo novo e por apenas R$ 70,00.

No décimo segundo dia fui direto para Urubici, cheguei com tempo limpo, corri para pegar a autorização e subir o morro da igreja novamente para enfim conseguir ver a pedra furada. Lá em cima do morro da igreja é um silêncio incrível, você só consegue escutar o assobio do vento na orelha e mais nada. É de uma paz que você pode ficar lá parado uma hora inteira somente admirando a vista.

Como o tempo estava limpo, pude conferir também a Cascata Véu de Noiva. Ao descer o morro da igreja, logo após o posto militar onde você entrega a autorização, é possível ver a entrada à esquerda, é só descer a estradinha para chegar em mais um local de tranquilidade. A cascata fica em propriedade particular e é preciso pagar R$ 3,00 para poder visitá-la. O local conta com estacionamento, restaurante e banheiros. A Véu de noiva não tem queda livre da água, ela desce suavemente pela rocha se assemelhando a um Véu, daí o nome. Segundo fiquei sabendo com pessoas da região, durante o inverno ela pode congelar. fiquei curioso, pois é uma cena difícil de ser ver no resto do Brasil.


Depois da cascata, saí novamente em direção à Serra do Rio do Rastro para descê-la pela última vez nesta viagem, e depois de tanto me divertir em suas curvas, foi aí que eu me senti oficialmente em retorno.

Saindo da Serra, desci por Orleans e Tubarão. O trânsito para pegar a BR 101 é bem complicado por este caminho, estrada estreita, muitas cidades e comunidades que causam trânsito lento, e rodovias com muitas lombadas. Por sorte peguei tempo bom por quase todo o percurso e so fui parar em Joinville às 21:00h.

13º dia, após sair de Joinville, fui em direção a Estrada da Graciosa, foi uma pena que ela ainda estava interditada por conta da queda de uma ponte, então tive que pegar o acesso para ela pela BR 116 e não por Morretes. Desta forma consegui rodar 10 km até a interdição, tirar algumas fotos e voltar, não havia mais absolutamente ninguém por lá.



Deixando a Graciosa para trás, meu destino agora era Jacareí em SP. Como não conhecia bem o caminho, achei que o melhor seria seguir pelo Rodo Anel até a Rodovia Airton Senna, e daí até o destino. Mas para apimentar, o GPS me mandou sair do Rodo Anel indo em direção à Mauá. Aliás, essa parte do Rodo Anel é bem confusa, ele se divide em dois, e olhando pelo Google Maps todos dois tem o mesmo nome, SP 021. Bem, acabei me perdendo em Itaquera e resolvi parar em um posto de gasolina para abastecer e me informar, nesse momento eram 16:40h. Após me falar o caminho de volta para o Rodo Anel, o frentista me diz que a Jacu Pêssego era "embaçada" para moto, e que eu não deveria dar bobeira. Como eu não conhecia a região, e sabendo que o roubo de moto ali era grande, sai do posto com o coração a mil, acelerando tudo que podia e pensando: não posso mostrar que não conheço a área, não olhei mais para o GPS e segui pelo corredor andando sempre no limite da via até chegar na Ayrton Senna. Depois do susto, cheguei em Jacareí às 18:30 e fui recebido pelo meu amigo Marcos Sthelling.

E vamos para o décimo quarto, neste dia meu amigo Marcos me levou para conhecer Campos do Jordão, eu estava um pouco cansado e ele me ofereceu ir de carro, aceitei na hora, mas me arrependi quando chegamos na Serra da Mantiquera, ahh que delícia seria ter andado ali de moto. A cidade é muito bonita, não parece que estamos no Brasil mais uma vez, por toda cidade é possível ver inúmeros Bordos, aquela árvore bem comum no Canadá. Passeamos pela cidade, comemos o pastel do Maluf, e fomos na Baden Baden, lá eu levei um susto, pedi a cerveja apenas olhando no cardápio, quando chegou a conta deu 28 reais por uma garrafa, belo susto.



No décimo quinto dia eu voltei pela Fernão Dias até Belo Horizonte, ao chegar em BH dei de cara com uma chuva com direito a trovões e raios desenhados no céu. Dei uma volta pelo centro da cidade e fui abordado por um motociclista em uma Dafra Next 250, ele ficou impressionado com a Fazer cheia de baús e acessórios, conversamos por um bom tempo no trânsito, foi algo inusitado. Depois da boa conversa fui fazer a troca do óleo após mais quatro mil km de chão. Saindo do posto acabei me perdendo um pouco, ao invés de voltar para a 381, fui em direção ao centro de Sabará, mas rapidamente com a ajuda do GPS e de um policial rodoviário achei o rumo de volta.

No décimo sexto dia eu fui de BH até Água Mornas lá no início de MG. Logo na saída de BH topei com um engarrafamento de quilômetros, a causa era um caminhão tombado. Isto foi uma constante na viagem, pois todos os dias eu via um acidente, e na maioria das vezes ficava evidente que a causa provável era excesso de velocidade. Bem, de volta a estrada, resolvi dormir na mesma pousada do posto da ida, o Mega Posto Faisão, seria uma perna bem comprida novamente, mas eu já sabia a distância e condições, e por consequência, se o tempo estivesse bom no outro dia, eu chegaria rapidinho em Feira de Santana no próximo dia. Já próximo a Águas Mornas, eu reparei que algumas barracas a beira da estrada expunham um produto que parecia uma bexiga de aniversário amarela, na pousada vim saber que era queijo, queijo cabacinha, uma delícia, não deixem de levar uma peça se estiverem de passagem pela região.


No décimo sétimo dia finalmente eu estava de volta ao NE. Mais uma vez tive a excelente recepção do meu amigo Dellacruz. E como cheguei cedo, pude enfim tomar uma breja com esse cara arretado.

Dia do retorno: finalmente após 10 mil km e 18 dias, no fim do dia 11 de maio de 2014, eu estaria de volta ao Recife. Saí um pouco mais tarde neste dia, pois como eu estava já em terreno conhecido não haveria problemas em pilotar à noite. Resolvi voltar por Paulo Afonso, pois na ida achei que não foi uma boa ideia ir pela BR-101, e acabou sendo uma boa decisão, não encontrei dificuldades e o asfalto em todo trajeto estava em bom estado. Em Paulo Afonso/BA, onde fica o segundo complexo de usinas do país, já que Itaipú não é só do Brasil, dei uma parada na ponte Dom Pedro I para tirar umas fotos da bela vista. É possível visitar a usina e andar de bondinho teleférico por cima do rio "Xico", sem falar em diversos passeios que podem ser feitos pelos cânions, além de esportes radicais, para quem estiver interessado, não faltam atrativos em Paulo Afonso.

Já mais a frente, chegando em Águas Belas fui recepcionado com muita chuva, com direito a neblina, era Pernambuco querendo me lembrar do frio que passei na viagem. Alguns quilômetros a frente, em garanhuns, a chuva deu uma trégua e a emoção aumentava cada vez mais, pois só faltavam 230 km, o que para mim, depois de tantos dias, não era nada. E para minha surpresa, fui recebido no Rei das Coxinhas de Gravatá pelo meu amigo Leo Correia, que não seguiu comigo por conta de um acidente dois dias antes da viagem, ele me escoltou até Recife para ser recepcionado por amigos e família.


Considerações finais: este era um sonho que eu tinha já a alguns anos, passei um ano no planejamento, pois como marinheiro de primeira viagem, muita coisa seria novidade. Como vocês puderam conferir a viagem não foi exatamente do jeito que foi planejado, mas pelo menos para mim, de forma alguma foi menos gloriosa. Para que eu pudesse realizá-la, foram necessário alguns sacrifícios, mas na verdade tudo não passou de uma questão de prioridades, se você quiser, você também consegue. Deixo aqui mais uma vez o agradecimento a todos os, até então, amigos virtuais que econtrei pelo caminho, se não fosse por eles eu não teria ido tão longe.

A próxima já está sendo planejada...  vamos encontrar a cidade perdida. Grande abraço.