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terça-feira, 20 de setembro de 2016

Do Recife ao Peru de moto. Parte 1.

Uma vez que você começa a viajar não há mais volta, você começa a ficar viciado. Após a expedição de 2014, eu precisava de mais uma grande viagem, e o destino dessa vez seria o Peru.

A ideia era sair do Recife no mês de Maio com destino a Cusco, depois seguir para o lago Titicaca, e tudo isso novamente na mesma Fazer 250. Mas desta vez eu teria a companhia de minha namorada a partir de Rio Branco, no Acre, o que tornaria a viagem ainda melhor. 

Fiz todo o planejamento conforme tenho relatado no guia para viagens longas. realizei toda a preparação, manutenção e compra de itens necessários.

Enquanto planejava, eu estava imaginando que seria mais difícil que ir para o Sul, primeiro que a distancia era 30% maior e as estradas em sua maioria não seriam duplicadas e teriam pior pavimentação. Mais um ponto a considerar é que haveriam menos cidades no caminho, pois as áreas de plantação são imensas, são quilômetros e quilômetros de milho e soja. Em caso de emergência eu poderia ficar parado no meio do nada. Eu ainda contaria com menos apoio de amigos, e passaria por regiões de fronteira consideradas perigosas. Sim, não foi fácil, principalmente pelo pouco tempo mais uma vez, pois eu estava limitado às minhas férias, e a moto não ajudaria se eu precisasse ir mais rápido que 110 km/h. Mas com toda certeza foram estas dificuldades que trouxeram brilho a aventura.

Porque o mês de Maio? No verão as chuvas tornam as rodovias do Norte intransitáveis devido aos grandes alagamentos causados pelas chuvas e rios super caudalosos. De Junho a Agosto o frio é muito intenso, chegando a ter gelo sobre o asfalto nos Andes e muita neve. Portanto o melhor período para uma viagem que passe por este roteiro é nos meses de Abril a Maio e Setembro a Novembro. Eu escolhi Maio pois queria um pouco de frio, de calor já basta minha cidade o ano todo.

Quando você estiver lendo esta matéria, tenha em mente que a viagem foi em Maio de 2015, então preços podem estar bem defasados, e obras de infraestrutura(ou a falta delas) podem ter alterado as rodovias.

Caso você veja este adesivo ai de cima colado em algum lugar, é porque eu passei por ali. Coxinha Sagrada? A coxinha remete a nosso grupo de motociclistas, não não não, não somos políticos e nem de massa por fora e frango por dentro, somos apenas motociclistas que tratam as motos com um pouco mais de zelo. E o sagrado remete a terra sagrada dos Incas. Vamos em frente.

Recife - Itaberaba

Saindo no dia e hora planejados, as 05:00 h da manhã do dia 02 de Maio, dia em que aconteceu o Moto Energia em Paulo Afonso. Eu parti com a intenção de chegar em Itaberaba na Bahia, a 960 km de distância de casa, aproveitando que no primeiro dia vc está bem descansado e fazer logo uma pernada grande. Foi um dia de provação, a primeira parada só ocorreu 250 km depois com mais de 3 h de pilotagem, e apenas para abastecer e beber água. Mais a frente em Paulo Afonso, parei para tirar umas fotos e acabei conhecendo o pessoal do Raposa Negra Moto Grupo. Acabei também cruzando com o amigo e DJ Fagner, que não sabia o quão longe eu estava indo. 

Seguindo meu caminho, ao chegar próximo da BR-116 em Tucano, a menos de 400 m de mim, uma moto atravessa a estrada e faz com que um carro na direção contrária tenha que desviar e acabe capotando. Foi duro presenciar a cena logo no primeiro dia de viagem, mas eu tinha que seguir. 

E os desafios do primeiro dia não pararam por ai. Eu tinha instalado uma bolha Givi na moto na intenção dela barrar o vento e o barulho de turbulência, mas o efeito foi exatamente o contrário, a turbulência estava me deixando louco e com dores nos ouvidos! Somado a isso, a moto estava fazendo uma média de 26 km/L, bem longe dos usuais 29 km/L que costumava fazer, talvez a nova gasolina com 27% de álcool tenha sido umas das causas. Mas mesmo assim, cheguei em Itaberaba as 18:00h, cumprindo o mais puxado trecho da viagem. Agora só faltavam 9 dias!

Itaberaba - Luis Eduardo Magalhães

Depois de uma bela noite de sono na pousada Charm, parei em um posto de gasolina Ipiranga e abasteci com a Aditivada. Após este abastecimento a Fazer fez uma média melhor, 27 km/L.

No caminho deste dia eu passaria pela Chapada Diamantina, mais precisamente bem em frente ao morro do Pai Inácio. É possível subir o morro até as 17:00h e ficar lá para apreciar o por do Sol, mas  devido ao cronograma e a capacidade de velocidade de cruzeiro da Fazer, eu resolvi fazer apenas uma parada rápida para fotos. A Chapada Diamantina é uma belíssima região de serras e vale a pena uma viagem extra para conhece-la.

Após montar na moto e seguir apenas alguns quilômetros a frente, outro acidente, um caminhão acabara de tombar numa curva. O começo da viagem não estava legal. E antes de prosseguir, tive que parar e arrancar o parabrisas, pois eu já estava ficando louco e surdo. Ainda bem que eu estava com o baú Givi E55 e coube o danado lá dentro! Continuando a viagem, encontrei péssimas condições da rodovia até a cidade de Barreiras. O Dnit abriu diversos buracos pra fazer a recuperação da pista e não fechou nenhum em quilômetros. E a partir deste momento começou a chover muito forte, e para dar um grau de emoção a mais, só fui perceber que estava com o celular no bolso externo da jaqueta quando já era tarde demais. Cheguei em Luis Eduardo Magalhães sem celular e sem poder me comunicar com familiares para avisar que estava tudo ok. Pelo menos a pousada Lumaré foi uma grata surpresa, excelentes acomodações com preços que começavam em 35 reais.

Sempre que eu passo em frente a uma loja Havan eu tiro foto, é até meio que engraçado aquela estátua da liberdade. Nem sabia que tinha uma por aqui no NE.

Luis Eduardo Magalhães - Brasília

Antes de pegar a estrada neste dia eu fui atrás de uma loja de celular, consegui encontrar e não me foi cobrado nada para dar uma "enxugada" no aparelho que voltou a funcionar.

Com o celular de volta a vida peguei a BR 020 com destino a Brasília. Logo no início do dia podemos observar uma paisagem que será praticamente uma constante até entrarmos em Rondônia, são quilômetros de plantações de milho e soja. Com sorte podemos ver as máquinas do plantio em operação, e para quem nunca tinha visto é uma coisa bem interessante, principalmente quando o pequeno avião agrícola dá aquele rasante sobre a pista.

A BR-020 não estava 100% mas também não estava ruim, após Formosa em GO, ela fica duplicada.

Ao chegar em Brasilia o encanto é grande, a cidade é bonita e organizada. Aos apressadinhos, muito cuidado, há radares de 500 em 500 m.

Brasília - General Carneiro

Antes de deixar Brasilia eu dei mais uma volta pelo plano piloto e decidi descer pela Asa Sul até a BR 060, e assim curtir mais um pouco dessa cidade tão bonita.

Neste dia eu tive um pequeno susto, pois achei que estava sendo seguido por uma outra Fazer 250 com um pequeno volume suspeito com o Garupa. Eu puxei todo o cabo do acelerador mas apesar disto eles estavam conseguindo se aproximar, foi então que apareceu um retorno e entrei nele repentinamente em alta velocidade e inclinando bastante a moto pra poder ganhar uma vantagem, ainda bem que após o retorno eles seguiram em frente. Daí eu retornei até o posto de pedágio que estava em obra alguns km atrás e voltei ao caminho normal. Brasileiro é assim, desconfiado, Recifense então... prefiro não pagar pra ver.

Susto passado, o negócio foi curtir a paisagem deste trajeto até Goiânia. Aqui fica um conselho, não sigam ate Goiânia, muitos buracos e trânsito para vencer a Perimetral Norte, entrem em Anápolis em direção a GO- 222, via Nerópolis até Inhumas onde você pega a BR-070.

Meu destino planejado neste dia era Barra do Garças, porém eu cheguei as 16:30h, e como ainda tinha Sol, decidi seguir. A próxima cidade era General Carneiro, distante apenas 70 km. Após Barra do Garças eu me senti com medo, talvez tenha sido o susto da possibilidade de assalto logo cedo ou a estrada mais estreita e sem acostamento, uma sensação estranha de fim de tarde. General Carneiro é muito pequena, e só possui uma operadora de celular na região, graças à WiFi do hotel não fiquei sem comunicação. E por Falar em hotel, fiquei no Tchê Hotel, do Eloir, que é viajante também e muito simpático, ficamos naquela prosa gostosa até a hora de dormir.

Sabe aquela sensação de cansaço? Pois é, só de pensar que ainda faltavam 5 dias para Rio Branco, cansava mais. Lá eu ficaria em casa de família, o que ajudaria um bocado! Então nada de desistir!

General Carneiro - Novo Diamantino

Saindo de Gal. Carneiro a estrada melhora um pouco, em alguns quilômetros entramos em uma grande reserva indígena, e como a mata nesta área é intocada e preservada, é possível observar muitos animais silvestres. Incrível que nos melhores momentos parece que por sorte você esquece a câmera desligada, pois assim você deixa de filmar e fotografar, e apenas curte o momento, pois não dá para tirar fotos e aproveitar a vista ao mesmo tempo. Nesta reserva eu pude observar Araras em formação, Tucanos e Onças, um espetáculo de beleza da natureza.

Mais a frente passo pela cidade Primavera do Leste, onde fiquei hospedado na volta. Depois dela viramos a direita na última saída de Campo Verde para irmos em direção a Chapada dos Guimarães. Logo na chegada da chapada, assim que começa a ciclovia, existe um mirante gigante e excepcional, de lá é possível ver Cuiabá. Mais uma vez devido ao cronograma, passei direto pois eu tinha que chegar o mais longe possível. Já na volta eu visitei a Cachoeira Véu de Noiva e dei umas paradinha para mais fotos na Chapada, portanto a foto da cachoeira é da volta.

Aqui fica a dica para quem também não quer passar por Cáceres, por ser uma região de fronteira um pouco conturbada. Assim que entrar em Cuiabá indo pela Chapada, pegue a direita para a MT-010, nesta rodovia o trafego de caminhões é proibido, siga até Rosário Oeste, em seguida siga sempre pela BR-364, para isso, no entroncamento Posto Gil, suba o viaduto. Neste dia acabei ficando em Novo Diamantino e me hospedei no Posto 10. Não gostei muito do quarto mas o café da manhã foi excelente.


Novo Diamantino - Pimenta Bueno

Mais um dia de surpresas. Para continuar a rota alternativa, devemos seguir até Campo Novo do Parecis, até chegarmos lá podemos apreciar gigantes campos de girassóis. Chegando em Campo Novo do Parecis, pegamos a esquerda na terceira rotatória em direção a Sapezal. Esta é uma rota alternativa, por ela cortamos 140 km, porém temos que pagar um pedágio oficial de 10 reais pelo direito de passagem na terra indígena Utiariti. Apesar do corte, a estrada é péssima, mas podemos curtir um belo banho no rio Papagaio (edição: pelo que soube, até 2018, o asfalto foi arrancado e não foi refeito, apesar do pedágio). Não sei ao certo mas parece que lá temos hospedagem também. A partir de Sapezal até comodoro o asfalto é bom, e daí pra frente pegamos a única rota para o Acre, muito movimentada e péssima de conservação. A estada do dia foi no Hotel Kanaan em Pimenta Bueno, o qual recomendo. Aproveitei para trocar o óleo da Branca depois de 4500 km.

Uma coisa que atrasou um pouco a viagem no MT foi a grande quantidade de pare e siga que temos, muitas reformas em rodovias federais e pare e siga com quilômetros de separação da entrada e saída. Interessante era ouvir a conversa de rádio entre os operadores das placas, o último carro a passar precisa ser lento pra não ultrapassar ninguém e ser de fácil identificação, imagina liberar um pare e siga com algum veículo ainda vindo. Fora isso uma coisa bem chata é a quantidade imensa de insetos nas rodovias.

Como a Fazer não tem proteção aerodinâmica eu tinha que parar sempre pra limpar a viseira. Fiquei completamente sujo de insetos atropelados. Nos pare e siga chegava a ser incômodo aquela nuvem de inseto voando ao seu redor. Devem ser característicos das plantações de milho, pois foi so sai dessa região que eles sumiram. A aparência deles se assemelha a uma abelha.


Pimenta Bueno - Porto Velho

Ao acordar e fazer a checagem da moto antes de pegar estrada mais uma vez, noto que que estava faltando um parafuso no para-lamas dianteiro. Agora eu entendo o porquê do barulho de bate bate q eu vinha escutando, viva a buraqueira. Consegui achar o parafuso na Yamaha de Cacoal por R$ 8,00, menos mal.

A Fazer estava muito beberrona, e eu pensei que poderia ser o filtro de ar paralelo, este só consegui achar na Yamaha de Ji-paraná, porem não surtiu muito efeito, o porquê eu descobri quando troquei a vela no Acre, logo mais vocês saberão.

Cheguei um pouco cedo em Porto Velho, porém o GPS que vinha dando sinais de falha no carregador resolveu apagar de vez.  Agora eu estava em uma cidade maior, sem mapas e com uma conexão 3G que não ajudava muito. Com a ajuda de um desconhecido mas também viajante, peguei a dica de ir ao Hotel Porto Seguro. Deixei tudo no hotel e fui rapidamente aproveitar o restinho de sol para ir até o porto admirar a bela vista do rio Madeira. Infelizmente o por do sol foi interrompido pela chuva e eu não pude ir conferir as caixas d'água, outro ponto turístico. Devido a chuva acabei comendo biscoitos no hotel mesmo.




Porto Velho - Rio Branco

Até este momento eu ainda não tinha alterado meu fuso horário, eu ainda acordava cedo e o sol ainda não havia nascido. A vantagem de se viajar do Leste para Oeste é que os dias vão ficando cada vez mais longos, pois para mim que viajo somente com sol, ele estava se pondo às 19:00h no meu horário de Recife. Com isso em mente, e pensando que o trânsito para Rio Branco seria ruim, sai cedinho esquecendo que era Sábado, ou seja, o trânsito estava bem melhor e eu provavelmente chegaria rápido. E pra refrescar o calorzão, a chuva que esteve presente todos os dias, começou logo cedo. Por sinal pense num calor que faz por essa região. Quando já estava voltando, após Porto Velho cheguei a pegar 36ºC durante a tarde. Isso tudo você dentro de uma jaqueta e calça de cordura é de matar, cheguei a ficar atordoado de calor e parei as 16:30 no hotel em Jaru.

Continuando nossa rota do dia, alguns quilômetros mais para frente a paisagem começa a ficar bem diferente, a rodovia fica cercada de água pelos dois lados e podemos ver antigas pontes de ferro mergulhadas na água. A rodovia é nova e foi elevada devido a construção de algumas hidroelétricas, um cenário muito interessante.

Mais interessante ainda foi a travessia de balsa em Abunã, eu nunca tinha feito uma de moto. A balsa é imensa e carrega muitos caminhões, que a fazem balançar bastante quando eles sobem. O valor para motos foi R$ 4,50.


A partir deste ponto podemos perceber que pedras e brita são artigos de luxo no Acre. Como estava chovendo, eu tive que desistir de alguns postos de combustíveis que não tinham calçamento entre o posto em si e a rodovia pois existia um mar de lama para se transpor. A condição das rodovias por sinal é bem precária, vê se que elas foram construídas apenas com um pavimento de asfalto diretamente sobre a terra, mais um viva a nossos políticos!

Como previ na saída, cheguei bem cedo, às 13:30h. Rio Branco é bem diferente do resto do estado, bem organizada e bonita. O planejado era passar o dia seguinte por aqui, o que foi bom também pois pude dar uma revisão na Fazer antes de subir os Andes na Segunda-Feira.

Como eu tinha falado lá em cima, a Fazer estava com um consumo alto, ao retirar a vela de ignição pude ver que ela estava totalmente branca e amarela! sinal do "excelente" combustível que andei colocando no caminho. O que te deixa mais revoltado ainda é que pelo preço absurdo de 3,75 em RO e AC, era para no mínimo a gasolina ser de boa qualidade!

Agora era só começar a contar os minutos!



Acompanhe o segundo capítulo da aventura: parte 2 - Peru

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