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domingo, 20 de novembro de 2016

Do Recife ao Peru de moto, parte 2 - Andes.

Segunda feira, 11 de Maio de 2015, após 9 dias percorrendo o Brasil de Leste a Oeste solitariamente, chegou a tão esperada hora de finalmente andar de moto pelas montanhas Andinas!

Eu já imaginava que os trâmites na fronteira iriam levar algum tempo, por isso saímos cedinho de Rio Branco, até porque ainda tínhamos praticamente 350 km até a fronteira, e de agora em diante garupado. Mais uma vez fomos acompanhados de uma leve chuva, chuva que como já falado antes, esteve presente todos os dias.

Para quem tinha enfrentado 5500 km e o péssimo estado de alguns trechos da estrada até este momento, mais 350km não seriam nada, mas eu não imaginava que seriam tão ruins assim. Parecia mais que houvera um bombardeio na BR-317 tamanha a buraqueira. Vencido o trecho de guerra, finalmente eu estava de frente com Alfândega do Brasil. Uma pausa para fotos, e o desavisado aqui começa uma pequena odisséia. Sem lembrar que eu tinha que dar saída do Brasil na Polícia Federal, fui em frente e entrei no Peru (sem trocadilhos), parei para mais umas fotos e segui para a Aduana. Ao chegar na Aduana, o Agente Peruano perguntou onde estava a minha saída do Brasil, como o tonto aqui não tinha feito, fui obrigado a voltar até a o posto da PF. De posse do devido carimbo no meu passaporte, voltei ao Peru, porém os agentes estavam em horário de almoço, o jeito então era ir lanchar e tomar uma Inca Kola. Chegando pra lanchar,  depois de gastar energia tentando desenrolar um portunhol pra pedir um lanche e algumas informações, descubro que a garçonete é brasileira. ahahaha menos mal. Aproveitamos também para trocar um pouco de Reais por Soles. Já haviam me avisado que o melhor câmbio era aqui nas barraquinhas da fronteira, e foi mesmo, conseguimos 1x1. Fiquei um pouco desconfiado e não troquei tudo, mas imagino que ninguém vai trocar notas falsas bem ao lado da Policia Aduaneira Peruana. Pelo que pude notar, falsificação não é uma coisa corriqueira como temos na Argentina.


Assim que o relógio bateu 13h, saímos da lanchonete e fomos direto desenrolar nossos papéis de entrada, como nós dois estávamos com passaporte foi tudo muito rápido. É possível entrar somente com a Carteira de Identidade, mas aí você tem que preencher mais papéis. Nesse meio tempo o mundo desaba em água, mas como o funcionário deu ok e não me falou mais nada, então montamos na moto e passamos a Barreira. Foi então que nesse momento eu ouço um grito, amigoooo, amigooo, pensei: só pode ser comigo. Ao olhar para trás um outro funcionário peruano estava fazendo gestos e pedindo que eu voltasse. Ao voltar ele pergunta se dei saída na moto, eu disse que não e que ninguém tinha avisado, mas beleza, vamos concluir as papeladas. Neste exato momento ouve-se um estrondo absurdo de um trovão e ficamos sem energia elétrica, e eu precisando de cópia dos documentos. O jeito foi sair correndo na chuva atrás de alguma barraquinha com gerador. No fim tudo deu certo e lá pelas 15:30 eu estava finalmente entrando no Peru. Só faltava um detalhe, a moto estava na reserva. Perguntei por um posto e me disseram que tinha logo ali na frente. Chegando lá ele parecia fechado e ainda existia um mar de lama entre a rodovia e o posto, tive que voltar até o Brasil e abastecer por R$ 3,90 o litro de alcolina. Hoje em dia até parece pouco esse valor. Então finalmente abastecido, seguimos em frente.

Deixo aqui a observação que não precisa se preocupar com gasolina neste caminho. Tem muitas cidades Até Puerto Maldonado e mesmo as mais pequenas tinham posto. Tudo bem q eu fui com uma Fazer 250 e com um tanque de 19l eu não me preocupei muito com isso. Mas não precisa levar glão, pode ir tranquilo.



No momento em que já estávamos em terras Peruanas tivemos uma sensação estranha, quem já fez o mesmo sabe como é. Algo muito gostoso estar longe de tudo, entrando em país estrangeiro, e ainda mais em um dia de chuva e morrendo de frio. A paisagem era linda e a estrada perfeita. Eu só fiquei meio desconfiado pela quantidade de placas de 60 km/h, o que me fez andar devagar com medo de fiscalização, e acabou nos fazendo chegar a noite em Puerto Maldonado. Passamos por alguns pedágios, porém motos não pagam. A única coisa chata da rodovia é a quantidade de vilarejos no caminho, e em todos existem pelo menos duas lombadas, que por sinal pareciam ser o local preferido para os cachorros tirarem uma soneca. Portanto, cuidado com os animais na pista, entre cachorros e vacas eles são muitos. Já houve inclusive mortes de brasileiros que em alta velocidade se chocaram com animais. Mas o que fica na nossa mente é a visão dos vilarejos, um modo de vida bem diferente, não se vê luxo, apenas casas simples de madeira e mal se via energia elétrica.

Por conta da demora na aduana e da baixa velocidade, o dia começou a ir embora e eu comecei a ficar preocupado. Estávamos debaixo de muita chuva e começamos a rodar a noite. A parte boa é que a rodovia é muito bem sinalizada e os Peruanos em geral andam bem devagar, respeitando sempre o limite de velocidade. Por volta das 18:30h avistamos uma ponte imensa, e este era o sinal de que estávamos finalmente em Puerto Maldonado, e aqui já pudemos ver a receptividade do povo Peruano, conseguimos achar o nosso hotel graças a ajuda de um taxista que nos viu enrolados fazendo perguntas e nos guiou até lá. Infelizmente devido a chuva e a hora que chegamos, não pudemos ir jantar o hambúrguer de Alpaca que tanto queríamos, acabamos comendo uma pizza muito louca e apimentada no hotel mesmo.

Puerto Maldonado é uma cidade curiosa, apesar de ser a capital da região da Madre de Deus, ela é bem pequena e possui muitas ruas ainda de barro. O trânsito é louco e marcado pela presença intensa de Tuk Tuks, aqueles carrinhos de três rodas que vemos muito na Índia.

Ficamos no El Huerto Hotel, não foi dos melhores mas pelo preço valeu a pena. A WiFi estava com problemas mas pelo menos tinha estacionamento e você já pode fazer a reserva pelos sites de hotel. Na volta fizemos reserva no Tambopata Hostel e eu não gostei nem um pouco. Nem janelas tinham no quarto, loucura!



Puerto Maldonado - Cusco

Neste segundo dia no Peru começamos a subida dos Andes, e a medida que vamos prosseguindo a vista fica cada vez mais interessante. Em determinado ponto começamos a ver muitas pontes e rios, e os rios chamam a atenção pela ausência de terra, o leito é inteiramente de pedras. As Pedras que ocupam o leito são parecidas com as que chamamos de "Xêxo", mas não são pequenas não, algumas são do tamanho de um carro. Quando estamos já a uns 100 km de distância de Puerto Maldonado, começamos a nos divertir com as curvas em U. São tantas e tão fechadas que existe um aviso para que você utilize a buzina, e é bom usar, pois pode vir um caminhão tomando as duas faixas do outro lado. É sempre bom manter a prudência, pois apesar da curva em si não ser tão perigosa para uma moto, um caminhão pode complicar tudo.


Eu não lembro o ponto exato que começamos a subir de verdade, sei que é após a cidade de Quince Mil. Antes disso nós subimos e descemos como em uma montanha russa. Após Quince Mil, se você estiver em uma 250cc como eu, você sentirá facilmente que está subindo, e a subida só irá cessar quando chegar aos 4725 m de altitude, coitada da Fazer. Durante a subida encontramos diversos Pare e Siga, acontece que as encostas da rodovia são muito instáveis e vimos mais de uma dezena de deslizamentos, e com isso perdemos alguns preciosos minutos parados. A parte boa é que eles não te deixam esperando muito como no Brasil.


Não há forma de tentar explicar a paisagem que vimos no caminho, é algo incrível!! Eu deixo as fotos para que vocês tentem entender. Em relação a esta paisagem, existe um povoado que será o marco da mudança, Marcapata. Logo após a ponte em curva onde eu tive que descer da moto devido ao deslizamento, você vai observar que estamos indo para o outro lado dos Andes, deixamos para trás a umidade e a mata Amazônica, e damos de cara com uma paisagem com menos cores. As árvores começam a desaparecer e a terra dá lugar a pedras e mais pedras. Fantástico!!!


Quando chegamos em Abra Pirhuayani, o ponto mais alto da rodovia a 4725m acima do nível do mar, a sensação é de estar mais leve, você anda como um astronauta na lua, foi muito esquisito. E apesar do Sol, a temperatura na ida estava em torno dos 7 ºC, com sensação térmica próxima de zero creio eu, pois meus dedos estavam dando choque! Já na volta nós encontramos até neve no acostamento.

Eu estava um pouco preocupado com esta subida e com os efeitos da altitude tanto na moto como no corpo, mas pelo menos no corpo eles não são imediatos, exceto o cansaço para se andar. Então, podem ficar tranquilos que qualquer moto injetada vai na boa, e desde que você esteja com um preparo físico mínimo, não irá sentir muita coisa durante o caminho. Só não esqueça de beber água, na altitude nos desidratamos simplesmente pelo ato de respirar, e muito do que se pensa se o Soroche - o mal da montanha - é apenas desidratação.


Após Abra Pirhuayani começamos a descer...      para depois subir de novo. Para quem tem problemas de enjoo, aviso aos navegantes: assim que for avistada uma placa do Mirador Cuyuni, preparem-se, as curvas em U começam em intervalos muito curtos, e estamos a mais de 4000 m. Fui obrigado a parar mais  adiante para que minha garupa pudesse descansar e desenjoar. Seguindo em frente e depois desta grande montanha russa, chegamos a cidade de Urcos, um excelente ponto de apoio para quem precisar, acabamos não parando pois Cusco já estava pertinho.

A chegada em Cusco é outro momento ímpar, pois aquele era o ponto final para a Fazer! Parece que o entardecer tem o poder de transformar tudo em um momento mágico!

Bem, mas agora era só curtir e aproveitar as belezas do mundo Inca. No próximo artigo contaremos sobre o turismo na região. Grande moto abraço.

8 comentários:

  1. Parabéns mano, pela coragem e aventura. E meu sonho fazer esse trajeto, e pesquisando, vejo várias histórias como a sua. Um dia faço, com a graça de Deus! Massa

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    1. É so se organizar, com vontade tudo é possível! Boa sorte.

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  2. Muito bacana sua aventura e por sinal vai me ajudar pois pretendo fazer esse trajeto também.

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  3. Bom dia Detrius,

    Primeiramente parabéns pelo relato, irei em setembro fazer rota parecido, mas saindo aqui de SP junto com um amigo.

    Procurando por informações acabei ficando em dúvida em relação ao SOAT.
    Pelas minhas pesquisas ele é adquirido no Peru, no entanto li alguns relatos de pessoas que foram paradas antes de conseguir fazer o tal SOAT.

    Ao passar pela fronteira e entrar em Inãpari (Peru) consigo fazer o SOAT já nesse momento? A ultima coisa que quero e ter algum problema com documentação.

    Atenciosamente,

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    1. Olá Paulo, muito obrigado. Bem, ali na vila da fronteira existem pessoas que fazem sim o seguro, porém não posso garantir que todos sejam honestos. E dependendo do dia e hora podem estar fechados. Eu faria pela internet, foi assim que fiz com o Soapex no Chile recentemente. Algumas seguradoras que fazem online: Mapfre Peru, Rimac seguros, Pacifico Seguros. Todas no Peru, você so vai precisar de cartão internacional. http://www.soat.com.pe/quienesoperan.html. Boa viagem!

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    2. Demtrius,

      Agradeço pelo rápido retorno, a reposta foi de grande ajuda irei verificar essa opção online com certeza.
      Uma ultima pergunta, o que você achou das opções de abastecimento desde que passou a fronteia até Cusco ? Irei ir em uma tenere 250 será que é necessário levar aqueles galões (5 litros) ou é exagero?

      Agradeço desde já.

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    3. Olá Paulo, de nada. Sempre que viajei de moto me deparei com muita ajuda sem nem pedir, só retribuo. Tenere é minha moto atual, fui com ela para o Atacama em Nov. passado. Já era pra ter postado mas sabe como é neh, tempo pra organizar tudo. Não precisa se preocupar com Gasolina. Tem muitos postos e pequenas cidades no caminho. So tente usar a gasolina de octanagem maior ou mediana na subida, nem precisa encher o tanque todo com ela, pois o esforço que a 250 vai sofrer pode fazer ela bater pino. De resto minha moto ficou bem mais econômica, essa parte dos Andes tem pouquíssimo vento, que é o terror da Tenere.

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